segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Vingança. O filme e uma reflexão sobre o cinema nacional


Ontem, domingo, fui na casa do meu amigo Helder Maia para assistir ao filme Rockinrolla, do Guy Ritchie. Antes da gente começar a ver o longa, ele me mostrou o blog da Pax Filmes, uma produtora independente brasileira que quer formar público fazendo filmes com orçamentos enxutos, bem-feitos tecnicamente e viáveis comercialmente. Um projeto ousado em meio a tantas politicagens de alguns diretores e produtores que conhecem o grande esquema da captação de verbas do cinema nacional e vivem disso, fazendo seu pé-de-meia produzindo filmes meia-boca e botando a culpa no público - sempre ele - que prefere as produções gringas. O problema mesmo é cultural. Poucas redes de distribuição apostam em cinema nacional sendo obrigadas, por lei, a exibirem uma cota mínima de filmes brasileiros. Fazer filmes é caro. Mas com talento e boa vontade é possível produzir cinema de qualidade. A tecnologia ajudou muito nesse sentido. A aparelhagem digital, por exemplo, está chegando a um patamar nunca antes visto e hoje em dia, com muito menos dinheiro que seria necessário para fazer um filme pelo método convencional, ou seja, filmando em película, revelando etc, é possível produzir tudo digitalmente e editar digitalmente, fazendo intervenções na pós-produção que nunca antes foram pensadas (vejam o exemplo desta incrível câmera). Os softwares são os mesmos. Os computadores são os mesmos de lá e de cá.
Então, por que isso não muda?
No blog da Pax Filmes, Paulo Pons reflete sobre o assunto neste post:
"Fazer um filme não é mais privilégio de projetos milionários. Levá-lo ao seu público ainda é. O Brasil hoje se orgulha da façanha de ter retomado a produção do seu cinema, mas não sabe o que fazer com seus filmes. Em termos de tecnologia, aprendemos com os americanos. Em termos de consumo interno dos nossos próprios filmes, parecemos um país de fundo de quintal. O que ainda não se decidiu é o que se quer para o nosso cinema, nem se esse “cinema retomado” quer dizer apenas filmes produzidos, já que em mercados mais organizados cinema quer dizer filmes realizados e distribuídos e exibidos. Antes de se estabelecer qualquer indústria, sabe-se que é imprescindível garantir sua infra-estrutura (no caso do cinema, salas de exibição) e mercado consumidor. Não temos nada disso, de modo que não dá pra se dizer que existe no Brasil um cinema nacional se apenas os produtores, pré-remunerados por seus filmes de milhões financiados a fundo perdido, recebem os privilégios do seu mercado, enquanto a outra ponta, o público – que num país de incentivos fiscais é quem paga a conta – não vê o resultado do seu próprio mecenato. Eu mesmo sou um produtor e sei que se não mudarmos com urgência esse panorama de esbanjamento de recursos e fracassos de resultados, em muito pouco tempo não nos restará cinema nacional para fazer ou exibir. Para que cheguemos a este fim trágico, basta que na renovação dos mecanismos de isenção da Lei do Audiovisual, programada para 2010, alguém veja em tudo isso uma farsa, e o processo não seja renovado. Ou que, em caso de manutenção dos mecanismos, as alterações urgentes e necessárias não sejam feitas, e tudo continue deste mal para pior."
Mais além, ele reflete sobre o fracasso comercial do filme Vingança e da falta de salas de cinema no Brasil que invistam em formação de público:
"Um dos nove cinemas onde estreamos e nos quais não sobrevivemos à primeira semana foi o Ponto Cine, em Guadalupe, subúrbio do Rio. O Ponto Cine é mais que um cinema, é um projeto incrível de formação de público para filmes brasileiros. Lá se projetam exclusivamente longas-metragens nacionais ao preço de R$ 6 reais a inteira e R$ 3 a meia. No último sábado estivemos em Guadalupe e conversamos com uma platéia lotada após a sessão das 10h da manhã. Vingança foi muito bem no Ponto Cine, mas o cinema de sala única tem um festival programado para a próxima semana. Ao deixarmos Guadalupe, depois de um maravilhoso debate com o público e uma conversa muito interessante com o Adaílton Medeiros, fundador do projeto, perguntávamos a nós mesmos por que não existem no Brasil outros 20, 50, 100 cinemas como o Ponto Cine, cobrando ingressos por aqueles valores e localizados em regiões como aquela (subúrbios de metrópoles ou cidades de pequeno e médio porte, hoje sem salas de exibição). Esta é a mais evidente e rápida solução para todos os problemas do cinema brasileiro. Uma sala como a do Ponto Cine pode ser construída ao custo de, no limite máximo, R$ 500 mil. Foram realizados mais de 80 longas-metragens brasileiros este ano, ao custo médio de, como já foi dito, R$ 2,5 milhões. O suficiente para se construir cinco pontocines. Dez filmes brasileiros médios, igual a 50 salas de cinema para filmes brasileiros. Não é demais sonhar sobre números tão realistas."
Ao mesmo tempo que vem essas perguntas, uma principal ainda surge. De quem deveria ser a responsabilidade? Do governo ou da iniciativa privada? Será que a culpa é realmente nossa, o público, que não aposta no cinema nacional? Ou será que a má fama dos filmes do passado, todas justas à luz das maracutaias dos realizadores do passado ainda vai perdurar por muito tempo? Pelo visto, esse filme ainda está longe de encontrar um final.
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