segunda-feira, 25 de junho de 2007

Fahrenheit 451 é agora!

Passeando no Orkut, me deparei com esse desabafo de um autor de livros juvenis que enviou um original de seu livro para análise de uma editora. A resposta é alarmante. Faz pensar naquela realidade descrita por Ray Bradbury em seu livro Fahrenheit 451 A mensagem é enorme, por isso vou pontuar alguns trechos. Vale a pena a reflexão:

"Gostei do seu e-mail. Entendo perfeitamente a sua situação e gostaria de expor a você o que eu aprendi com a minha experiência na área de juvenis.

Como as editoras se comportam neste segmento? Elas dependem das escolas. Nenhuma sobrevive vendendo livros juvenis em livrarias, porque os jovens no nosso país não lêem. A minoria abastada, que aprendeu o hábito de leitura em casa, lê. Mas é minoria. A massa, a grande consumidora de livros juvenis, são os alunos das escolas públicas e particulares do
Brasil. Esses jovens lêem os livros adotados pelos professores deles, o "livro que a professora mandou ler". É dessa venda que as editoras sobrevivem nesse segmento.

O grande comprador de livros juvenis é o governo. Ele adquire tiragens grandes de determinados títulos para distribuí-los nas escolas públicas. Por isso as editoras se matam de tanto trabalhar quando surgem programas de governo, porque esta é a oportunidade de vender. Elas precisam ganhar a concorrência com outras editoras.

Não são todos os títulos do catálogo que o governo compra. São alguns. Os outros é preciso divulgar nas escolas. As editoras grandes têm equipes de divulgadores pelo Brasil que visitam escolas, conversam com professores, distribuem catálogos, enfim, fazem esse trabalho de formiguinha para conseguir que o livro seja adotado. É da adoção em escolas que o segmento juvenil sobrevive. A exceção é Harry Potter e Deltora Quest, livros traduzidos e com forte apelo comercial.

Outra coisa a ser considerada: livros são caros. A maioria dos alunos não pode dispender muito mais que R$ 25 em um livro paradidático, como chamamos os de literatura juvenil. Então, a maioria dos livros para essa faixa etária não pode ser caro, nem é colorido (o que encarece a impressão). O que eles precisam ter é material de apoio ao professor,
encarte para o professor, suplemento de leitura para o aluno.
Infelizmente, os professores querem receber tudo mastigado, não querem ter trabalho. Há aqueles que adotam um título sem sequer tê-lo lido. É uma realidade avassaladoramente triste.

Você conhece bem a realidade do ensino no Brasil. Desnecessário eu dizer qualquer coisa. Então, livros mais complexos, literatura de verdade, comtrabalho de linguagem, bem escrito, com enredo que exige mais do leitor, que requer que ele interprete, esses não têm apelo junto às escolas.
Porque nem professores nem alunos estão prontos para trabalhá-los. Os livros juvenis mais vendidos, pode comprovar, beiram o óbvio e não requerem grandes esforços dos leitores em questões mais complexas. Eles precisam abordar os "temas transversais" impostos pelos professores (Meio ambiente, Pluralidade cultural, Trabalho e consumo, Ética, Orientação Sexual e Saúde). Aliás, esses mesmos professores escolhem livros por esses temas, sabia? Os autores "escolados" no ramo juvenil já escrevem pensando nisso. Afastam-se, a meu ver, cada vez mais da literatura.
(...)
Então, quando uma editora avalia o seu livro, independentemente da excelente literatura que ele carrega, do projeto gráfico legal e da originalidade da abordagem, seu livro precisa ter perfil para adoção em escolas, para compra pelo governo. A produção que ele requer precisa
culminar em um produto com preço acessível. Ele não pode ter um número grande de páginas. Essa é a realidade do país, não adianta fugirmos dela.

Um lançamento de autor consagrado no ramo juvenil tem tiragem de 5000 exemplares. Desses, 2000 são distribuídos aos professores. Sim, de graça. A editora PAGA para eles conhecerem o livro. Ela tira do próprio bolso visando uma adoção futura. Apenas 3000 vão ser destinados à venda.
É absurdo, mas é assim.

Outra coisa que também está condicionada à realidade do país: a economia não deixa as editoras ousarem, porque livro não é produto de primeira necessidade no Brasil. Na primeira crise, as pessoas deixam de consumir livros. Ela consomem comida, roupa, mas não livros. Isso impede as grandes editoras de "experimentar" o mercado, aquela coisa do "vamos ver no que vai dar, estamos arriscando essa novidade". Elas têm a fórmula de como funciona, de como vende. Se está dando certo assim, por que colocar tudo a perder? Entende?

Quando avaliamos um original lá na editora e o aprovamos para publicação, seja ele qual for e de que autor for, novato ou figurão, é feito um projeto de investimento junto com uma pesquisa de mercado. A gente analisa a concorrência, vê se tem espaço no mercado para esse
título, o que ele tem de diferente etc.
(..)
Isso,
aqui no Brasil, porque nosso país é deficiente em educação e cultura, as pessoas não têm hábito de leitura e são analfabetas funcionais, não entendem o que lêem.
(...)
Esse é o erro dos autores, Marcel. Eles acreditam tanto no produto que criaram (com razão, claro!) que se esquecem de que: 1) não são os únicos a apresentarem originais às editoras, elas recebem quase uma centena por mês; 2) eles é que precisam das editoras, não elas deles; então, eles é que precisam se adequar, não o contrário; 3) não há demanda suficiente para a quantidade de livros bons que as editoras recebem para publicar. Não adianta lançar um monte de títulos se eles não saem dos estoques; 4) livro caro não vende muito; 5) livro muito grosso assusta os jovens leitores e são caros de produzir, o que, conseqüentemente, se reflete no
preço final do produto.
(...)
De novo eu termino este e-mail com a sensação de ter deixado você ainda mais desiludido. Eu sinto muito. Acredite, mesmo sem conhecê-lo eu gostaria de ajudá-lo, mas está além de mim.
Mesmo há 8 anos trabalhando nesse mercado e estando consciente de como ele é, não concordo com ele, não o acho justo e acho, sim, que está longe do ideal. Mas se é ele que temos e não conseguimos mudá-lo, temos de estudá-lo como ele é e encontrar uma forma de nos adequar a ele. É a única solução num país que não se mexe e que caminha cada vez mais para a ignorância, concorda?

Desculpe não poder fazer mais. E desculpe também pela extensão do e-mail."
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