quarta-feira, 11 de março de 2009

Watchmen, o filme


Quando Zack Snyder anunciou que iria assumir o fardo de levar Watchmen, talvez a HQ mais celebrada de todos os tempos, um projeto que muita gente quis botar a mão (Terry Gillian foi um deles, mas desistiu quando viu a dimensão da coisa), muita gente torceu o nariz. Fãs ortodoxos da mini-série não acreditaram na capacidade de Snyder de transpor para a tela toda a complexidade, todos os desdobramentos temporais e emocionais que Watchmen tinha. Seu projeto anterior, 300, outra HQ desta vez escrita e desenhada por Frank Miller, fez sucesso, mas carecia de um apelo emocional que a história original não tinha e que permaneceu em sua versão filmada. O apuro técnico, o uso de tecnologia digital são inegáveis, mas cinema é só isso? O medo da maioria é que, com Watchmen, um projeto milhares de vezes mais difícil do que 300, caísse na mesma regra. E isso aconteceu em parte.
O diretor prometeu aos fãs uma fidelidade respeitosa ao espírito da obra original, promessa essa cumprida com louvor. É impressionante como cada enquadramento encontram ressonância nos desenhos de Dave Gibbons, desenhista original da HQ. Está tudo lá. O desespero de Nite Owl, quando sabe que não pode fugir do desejo de vestir a roupa de super-herói, o combate de Rorschach contra a polícia de Nova York, as cenas da prisão, a confirmação de que os super-heróis desse mundo possuem fetiches sexuais e só conseguem sentir prazer quando assumem suas máscaras e muito mais, muito mais. A maioria das falas transcritas do roteiro de Alan Moore. Está tudo lá. Mas porque esse filme não é perfeito? O que faltou?
Faltou talento do diretor para as partes onde a obra original é sublime. Faltou conduzir a audiência para o destino trágico dos milhões de mortos da série original. Faltou o público sentir na pele que o plano de Ozymandias era terrível mas inevitável, caso os super-heróis deixassem o mundo ser destruído pela guerra. Alguns reclamaram que o final foi alterado, mas pensem comigo: como seria explicar um alienígena gigante, o plano para construir esse ser, formado pela união de imaginação, engenharia genética e tele-transporte? Seriam necessárias horas só para chegar a esse final. A alternativa do filme ficou interessante: a culpa sendo colocada em cima do Dr. Manhattan, que supostamente estaria para sempre de olho na humanidade, o supremo Watchman, caso os seus líderes não parassem a loucura da auto-destruição. Se não ficou perfeito, a culpa, repito, é do diretor que não tem competência para lotar a obra da carga dramática que esse momento precisava para funcionar. Comparem com Batman Dark Knight. Mesmo com suas falhas de roteiro, o filme é um carrossel de emoções e o público acredita no que vê.
Mas a obra tem seus méritos. Suas referências, as homenagens a clássicos do cinema como Apocalipse Now, Doutor Fantástico, o início arrebatador onde aprendemos sobre a história da humanidade, alterada drasticamente pela chegada dos super-heróis. Mesmo a câmera lenta, fraco argumento para alguns críticos que acham que ela ficou over, deveriam rever essa sentença pensando nesses momentos como uma lembrança que a obra também é imagem, e sendo assim, funciona como uma paródia de uma HQ, algo parado, estático. Genial! Outro ponto a favor foi a escolha de Snyder em fazer de seus heróis muito superiores fisicamente dos seres humanos comuns. Na HQ, Moore e Gibbons descrevem os vigilantes como pessoas comuns que usam roupas de super-heróis. Em Watchmen, Snyder optou pela estética mais comum ao público já supersaturado de adaptações de HQs e deixou de lado a opção da série original. Afinal, estamos falando de super-heróis no mundo real.
Watchmen está aí. Existe um filme baseado na HQ mais cultuada de todos os tempos. Se não é perfeito, é muito melhor do que muita coisa pretensamente feita baseada em HQs. Comemorem.
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